quinta-feira, fevereiro 02, 2006

A ver se é desta

A ver se é desta que consigo escrever alguma coisa de jeito. A ver se escrevo algo de que me orgulhe, de forma a poder dizer que, sim, este é o meu post nº1, estilo moeda do Tio Patinhas que me dará sorte para os textos seguintes.

Uma vez que já tenho um outro blog, tive alguma dificuldade em encontrar uma direcção que me guiasse a escrita. É que, como o João uma vez me disse, eu sou um pouco sueco, ou seja, tenho que ter tudo bem delineado na minha cabeça para o poder passar para o papel. Ou neste caso para esta ardósia. Resolvi fazer dos meus textos aqui uma forma de desabafar as minhas angústias, os meus problemitas, enfim, tentar exorcizar os meus demónios. E, talvez, vocês aprendam ainda algo mais sobre mim, sobre esta coisa complicada que sou e talvez não tão alegre como aparenta ser.

Um dos meus problemas, ou traços de personalidade mais marcantes, estilo chicotadas nas costas, é a falta de confiança nas minhas potencialidades. A Sara espera que eu escreva, e tem a forte convicção de que sairá algo de bom. E a mim dá-me o bloqueio. Não acredito em mim em grande parte dos dias. Já me disseram, muitas vezes, que era bom para fazer isto ou aquilo. Já viram em mim potencialidades para fazer 30 coisas. E eu acho sempre que não. Medo? Falta de confiança? Comodismo? Preguiça? Não sei. Talvez de tudo um pouco, bem misturado e servido às colheradas ao pequeno-almoço.

Tenho quase 30 anos e, parecendo que não, o aproximar da data dá que pensar. Afinal o que é que sou? O que é consegui? O que irei fazer daqui para a frente? Nada de especial. Mas também não almejo o especial. Quero “apenas”, e se não for pedir muito, orgulhar-me de um percurso. E isso ainda está longe de acontecer. Não quero passar a minha vida na rotina de semanas de trabalho e fins-de-semana de descanso amorfo. Quero algo mais, mas o problema é que não sei o que é. Ok, somos muitos nesta situação, mas, assumindo uma posição um pouco (muito) egoísta, não me interessa. E eu? E eu?

Ainda tenho sentimentos difusos em relação ao meu emprego actual. Não me vou alongar muito sobre esse assunto porque pode ser que alguma das minhas colegas leia isto. No entanto, posso ainda dizer algumas coisas. Não sei o que sou lá dentro. Se algum dia alguém me perguntar o que é que eu faço, não sei responder sem discorrer uma grande lista do que faço. Polivalente? Sem dúvida, mas confesso que estou farto de saber fazer muita coisa e não ser verdadeiramente bom em determinado aspecto. Estou farto da mediania em que me encontro. E o que fazer para mudar? Não sei. De momento procuro outras paisagens laborais, mas sem a pressa do tédio e da repressão, uma vez que não as sinto no local onde trabalho. Quero apenas ver se há algo em que eu encaixo que nem uma luva.

Lá onde trabalho não consigo ter a posição sacana de querer isto e aquilo. Não é de mim. No entanto, quero mais do que aquilo que tenho. Quero, mas não o consigo demonstrar. Porquê? É o raio do meu feitio e desta mania de aparentar estar sempre bem disposto. Mesmo quando cá dentro tenho as tripas feitas num nó Górdio.

No outro dia pus-me a pensar. No meu emprego não tenho amigos. Dou-me com toda a gente, e com algumas pessoas mesmo de uma forma mais especial. Mas não tenho uma Sara e uma Joana para partilhar mágoas. Escondo sempre o meu mal-estar. É algo instintivo e não o consigo evitar. Sou conhecido por ter sempre boa cara e estar sempre pronto para a brincadeira. Mas isso é apenas para esconder a tristeza de quem se encontra perdido, sem saber a que gaveta pertence. Isto está tudo muito confuso, não está? É o que acontece na minha cabeça e, quando o tento passar para a escrita, sai assim. Confuso.

Sinto a vossa falta, mas isso já sabia que iria acontecer. Por muitos locais por onde trabalhe, chego sempre à conclusão que sinto a vossa falta. Temos todos personalidades tão diferentes, mas mesmo assim damo-nos bem. No outro dia disse à Sara que são as nossas diferenças aquilo que mais nos aproxima. Agora, cada vez que tento fazer amigos no local de trabalho, tenho sempre a vossa bitola. E digo-vos, não chegam nem perto.

O meu feitio oscila entre o da minha mãe e o do meu pai. Entre o retraído e o expansivo. Com dois exemplos assim, como é que eu poderia ser uma pessoa de simples compreensão? Talvez devido a este extremar de posições, a palavra “amigo” é uma coisa que não consigo empregar muitas vezes. Daí também que não tenho no meu vocabulário as expressões de “melhor amigo” nem de “grande amigo”. Se por vezes as emprego é para tentar encaixar-me nesse mundo em que as pessoas chamam de amigo aquele colega do Secundário com quem falam três vezes numa década. Para mim, existem os “conhecidos” e, depois de muita labuta, os “amigos”. Chegados a esse patamar, não podem ir mais acima. Esse é o céu. Perceberam amigas? Perceberam?

Amo a Maria João. Temos zangas e chatices, e alturas houve em que algumas discussões se tornaram bem acesas, ou melhor, bem apagadas ao som das lágrimas. Mas eu amo-a. Muito. Acho que só agora é que me habituei à ideia desta ser a minha casa, desta ser a minha família. Ainda no outro dia lhe perguntei se nós os dois éramos uma família. Amo-a, e não tenho medo de empregar tal palavra. Ela faz com que, apesar das minhas tristezas, esteja em paz comigo. Ela faz com que acorde todos os dias e me sinta bem apesar de tudo. Ela faz com que o meu coração derreta quando, ao sair para o trabalho, lhe dou o beijo do «até logo». Ela faz com que encontre a paz.

E é assim que me sinto. Confuso, sem saber que rumo dar à minha vida, mas em paz. Por vezes penso que a minha missão aqui na Terra não é ter um bom emprego, ter “posses” (palavra gira esta), ter uma carreira, ser uma grande pessoa (na visão capitalista do termo). Por vezes penso que estou a desempenhar um bom papel ao tentar fazer felizes e dar alegria às pessoas à minha volta. Será que o consigo fazer? Será este o caminho? Será com isto que me sentirei realizado? Ainda estou à espera para ver.

E agora? Venham outras mágoas para partilhar. Já vomitei aqui um pouco de mim. Outras virão. Sinto que ainda não saiu tudo, mas ficam para outros dias futuros.

E então? Esperaram, esperaram, esperaram… e agora sai-vos isto. Confesso que se fosse vocês pedia o meu dinheiro de volta.

2 Comments:

Blogger Eu said...

Não sou de tantas palavras como a sara, nestas alturas. Normalmente quando as coisas me tocam do modo como me tocou o teu texto só consigo exprimir realmente o que sinto com um olhar sentido e choroso ou com um abraço bem forte. Sim, daqueles que agora já aprendeste a gostar.
Estive aqui muito tempo a pensar que tinha que te escrever alguma coisa, mas sem saber o quê. Por isso digo-te simplesmente que acho que nunca me senti tão próximo de ti como agora, que nunca senti a tua porta tão aberta como agora. E que vou adorar "conhecer-te" ainda mais, amigo.

8:08 p.m.  
Blogger Unknown said...

Quero aproveitar-me deste espaço para escrever. Tenho o meu próprio blog, mas limitado como é a um conteudo estruturado, pensado, trabalhado e sentido, não posso elogir o Ricardo. Além disto, no meu blog não se escerevem nomes, apesar de saber em cada texto o nome que tem.
O Ricardo, esse ser especial que está tão bem documentado neste post de autor. O Ricardo, que mantem a coerência do pensar e do sentir em todas as alturas, trazendo de volta de uma irritação, de uma situação negativa ou de um mau momento para o lugar da calma, consciência e discernimento.
O Ricardo é isto: chama-me com um um diminuitivo "inho" e insulta-me no mesmo minuto, assegurando sempre que se entende o que quer dizer. Fala e ouve com o mesmo interesse e a mesma procupação: entendimento.
O Ricardo entende.
Abraço miúdo.

3:06 p.m.  

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